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3 de setembro de 2026 · 6 min de leitura

Crise de ansiedade: o que fazer na hora

Crise de ansiedade: o que fazer na hora, passo a passo. Como acalmar o corpo, o que costuma piorar, quando é emergência e o que fazer depois que passa.

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Luciano Domingues da Costa

Psicólogo clínico · CRP 06/123954

O coração dispara, o ar parece não entrar, as mãos formigam e vem aquela certeza absoluta de que algo muito grave está acontecendo agora. Quem já passou por isso sabe que argumento nenhum convence no meio do episódio.

Talvez você esteja lendo isto exatamente durante uma crise, com o celular tremendo na mão. Se for o caso, pule para a seção dos cinco minutos e volte depois para o resto.

Este texto é sobre o momento agudo: o que fazer enquanto passa, o que evitar, como saber se aquilo pede pronto-socorro e o que fazer nas horas seguintes para que o próximo episódio seja menos assustador.

O que está acontecendo com o seu corpo agora

Uma crise de ansiedade é um alarme disparando fora de hora. O organismo se prepara para lutar ou correr: adrenalina sobe, coração acelera para bombear sangue aos músculos, a respiração fica rápida e superficial, a digestão desacelera, as pupilas dilatam.

Cada sensação que te assusta tem uma função nesse conjunto de respostas de emergência. O detalhe cruel é que a interpretação da sensação alimenta o próprio alarme: você sente o coração acelerar, pensa "estou tendo um infarto", e esse pensamento libera mais adrenalina, que acelera mais o coração.

Duas informações costumam ajudar. A primeira é que o pico de uma crise tende a ser breve — sobe rápido, atinge o topo e começa a ceder, mesmo sem você fazer nada. A segunda é que o corpo não consegue sustentar esse nível de ativação por muito tempo: existe um teto fisiológico. A crise passa. Sempre passou.

Os primeiros cinco minutos: o que fazer

Nada aqui é mágica. São manobras que reduzem a ativação do corpo e devolvem alguma margem de escolha.

  1. Alongue a expiração. Não tente respirar fundo, tente respirar devagar. Inspire pelo nariz contando até quatro e solte o ar pela boca contando até seis ou oito, como se soprasse uma vela sem apagá-la. A expiração longa é o que aciona o freio do sistema nervoso. Repita por dois minutos, sem pressa.
  2. Ancore-se no ambiente. Nomeie em voz baixa cinco coisas que você vê, quatro que consegue tocar, três que ouve, duas que cheira, uma que sente na boca. Isso desloca a atenção do monitoramento interno para o mundo concreto.
  3. Use temperatura. Água fria no rosto e nos punhos, um cubo de gelo na mão, ar frio no rosto. É um estímulo forte o bastante para competir com o alarme.
  4. Solte o corpo em vez de travá-lo. Tensione os ombros por cinco segundos e solte. Descruze os braços. Apoie os pés inteiros no chão. Corpo travado sinaliza perigo de volta ao cérebro.
  5. Fale com você mesmo como falaria com alguém querido. "Isso é uma crise, é horrível e não é perigoso. Já passou antes e vai passar de novo." Frase curta, repetida, sem discussão interna.
  6. Fique onde está, se der. Sair correndo do lugar alivia na hora e ensina ao cérebro que aquele lugar era mesmo ameaçador. Se puder aguentar, aguente mais um pouco antes de sair.

O que costuma piorar sem querer

Algumas reações são intuitivas e trabalham contra você:

  • Respirar fundo e rápido. Hiperventilar aumenta a tontura e o formigamento, que são justamente os sintomas que mais assustam.
  • Checar o pulso a cada trinta segundos. Monitorar o corpo mantém a atenção grudada na ameaça e realimenta o ciclo.
  • Pesquisar sintomas na internet. Você vai encontrar a hipótese mais grave em quinze segundos.
  • Lutar para não sentir. Quanto mais você exige que a crise pare imediatamente, mais frustração e mais ativação. Aceitar a onda encurta a onda.
  • Beber para relaxar. Alivia no curto prazo e piora o padrão de sono e de ansiedade nos dias seguintes.

Depois que passa: a parte que muda o próximo episódio

Quando o corpo desce, existe uma janela preciosa. Aproveite para registrar, ainda no mesmo dia, quatro coisas: onde você estava e o que estava acontecendo antes; qual foi a primeira sensação física que você notou; qual pensamento passou pela cabeça naquele instante; e o que você fez em seguida.

Esse é o registro de pensamentos, uma das ferramentas centrais da TCC. Feito por algumas semanas, ele revela um padrão que quase ninguém enxerga sozinho: as crises costumam ter gatilhos repetidos e uma interpretação-chave que se repete ("vou desmaiar", "vou passar vergonha", "vou perder o controle").

Com esse mapa em mãos, o trabalho seguinte é a reestruturação cognitiva — examinar a evidência a favor e contra aquela interpretação e construir uma leitura mais precisa — e, quando o caso pede, a exposição gradual: voltar de propósito, em degraus, aos lugares e situações que passaram a ser evitados. Escrevi sobre os outros sinais de ansiedade que costumam aparecer junto e ajudam a fechar esse quadro.

Crise de ansiedade ou emergência médica?

Essa dúvida é legítima, e nenhum texto pode respondê-la por você. Sintoma físico novo, diferente do habitual, ou dor no peito que irradia para braço, mandíbula ou costas, especialmente com fatores de risco cardiovascular, se avalia em pronto-socorro. Procurar atendimento e receber alta com exames normais não é exagero: é conduta correta.

Se houver risco imediato, ligue 188 (CVV, 24 h) ou 192 (SAMU), ou procure a UPA ou o CAPS mais próximo.

Vale também descartar causas clínicas que imitam ansiedade, como alterações de tireoide. Quem faz isso é o médico. O que eu faço, do lado psicológico, é trabalhar a interpretação e o comportamento que mantêm o ciclo.

Quando as crises viram padrão

Um episódio isolado em um período de estresse acontece. O que pede atenção é a fase seguinte: quando você começa a organizar a vida em torno do medo de ter outra crise — evitar metrô, sair só acompanhado, carregar remédio na bolsa como amuleto, recusar viagens.

Esse medo do medo é o que costuma cronificar o quadro, e é exatamente ele que a terapia para ansiedade trata de frente, com técnicas que têm boa base de evidência. Atendo no consultório em Santana, Zona Norte de São Paulo, e também online — vale lembrar que quadros de crise aguda ou risco pedem atendimento presencial ou serviço de emergência.

Perguntas frequentes

Quanto tempo dura uma crise de ansiedade?

O pico costuma ser curto, de alguns minutos, e depois a intensidade cai. O que muitas vezes se estende por horas é o mal-estar residual: cansaço, tremor leve e o medo de que volte.

Crise de ansiedade pode causar desmaio?

É raro. Na crise a pressão tende a subir, não a cair, e desmaio geralmente ocorre no movimento oposto. A sensação de "vou desmaiar" é intensa, mas costuma não se confirmar.

Respirar em um saco de papel ajuda?

É uma prática antiga e hoje não recomendada como conduta geral, porque pode mascarar outras condições e piorar a situação em alguns casos. Prefira alongar a expiração.

Tomar um calmante resolve a crise?

Medicação é assunto de médico, e psicólogo não prescreve. O ponto de atenção é usar o remédio como fuga de toda sensação, o que pode reforçar a ideia de que a crise era mesmo perigosa.

Dá para prevenir novas crises?

Dá para reduzir bastante a frequência e o impacto, trabalhando gatilhos, interpretações catastróficas, evitações, sono e rotina. Não é uma chave que se desliga, é um padrão que se remonta com prática.

  • ansiedade
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  • crise

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