3 de setembro de 2026 · 6 min de leitura
O que falar na primeira sessão de terapia
Não sabe o que falar na terapia? Veja por onde começar quando falta assunto, o que fazer se der branco e por que a desorganização já diz muito.
Luciano Domingues da Costa
Psicólogo clínico · CRP 06/123954
"Eu não sei explicar direito o que estou sentindo." Ouço essa frase quase toda semana, dita com um pedido de desculpas embutido, como se a pessoa tivesse chegado sem fazer a lição de casa.
Não existe lição de casa antes da primeira sessão. Chegar sem saber o que falar na terapia é tão comum que eu já conto com isso ao abrir a agenda. Quem chega com o problema todo organizado em tópicos, aliás, costuma ter feito esse esforço justamente para não sentir nada enquanto fala — o que também é informação.
O que segue é o que eu diria a alguém que está com a sessão marcada e travando na véspera. Não é um roteiro para decorar. É um conjunto de portas de entrada, e basta abrir uma.
Comece pelo mais recente, não pelo mais antigo
A tentação é começar pela infância, porque parece o "certo" para uma terapia. Não é necessário.
O caminho mais fácil é o inverso: conte o episódio mais recente em que você se sentiu mal. Ontem no trabalho. A discussão de domingo. A madrugada em que você acordou às três e não voltou a dormir.
Um episódio concreto tem tudo dentro dele: a situação, o que passou pela sua cabeça, o que o corpo fez, o que você fez em seguida. Na Terapia Cognitivo-Comportamental, esses quatro elementos são exatamente o material de trabalho. De um episódio pequeno eu consigo puxar o padrão inteiro, e a infância aparece sozinha quando for a hora.
Se der branco, fale sobre o branco
Silêncio não é falha de sessão. Quando alguém trava, eu pergunto o que está acontecendo naquele instante: vergonha? medo de parecer exagerado? a sensação de que o problema é bobo perto do dos outros?
Essa conversa costuma render mais do que o assunto original. O que te impede de falar em terapia geralmente é o mesmo mecanismo que te impede de falar fora dela — com o parceiro, com a chefia, com a própria família.
Você também pode dizer, sem rodeios: "não sei por onde começar, pergunta você". Eu pergunto. Conduzir é parte do meu trabalho, e a estrutura de um primeiro encontro está descrita em como funciona a primeira sessão de terapia.
Cinco portas de entrada quando falta assunto
Se quiser levar algo pensado, escolha uma destas e desenvolva:
- O que mudou recentemente. Mudança de emprego, de cidade, de estado civil, luto, nascimento, diagnóstico na família. Transições cobram preço mesmo quando são boas.
- O que você evita. Ligações que não retorna, exames que não marca, conversas que adia. A lista de evitações desenha o mapa do medo com precisão.
- O que se repete. O mesmo tipo de relação, a mesma discussão, o mesmo arrependimento depois. Repetição é a pista mais barata que existe.
- O que o corpo anda fazendo. Sono, apetite, dores sem causa médica identificada, mandíbula travada, aperto no peito. O corpo costuma falar antes.
- O que você diria se ninguém fosse julgar. Muita gente sabe exatamente qual é o assunto e só precisa de permissão para nomeá-lo.
Uma dessas costuma bastar para os primeiros quarenta minutos.
Você pode falar de coisa "pequena"
Existe uma hierarquia imaginária de sofrimentos, e ela atrapalha bastante. Gente que passou por perdas graves acha que a irritação com o trânsito não merece sessão. Gente sem nenhuma tragédia na biografia acha que não tem direito de estar ali.
Não trabalho com essa régua. O critério não é o tamanho do evento, é o tamanho do impacto na sua vida.
Uma ansiedade discreta que faz você recusar promoções há oito anos custa muito caro. Uma irritação "pequena" que já afastou três amizades é um problema grande. Se está atrapalhando, é assunto. E frequentemente o incômodo pequeno é a ponta visível de algo que vale investigar em autoconhecimento.
O que não é obrigatório contar agora
Você decide o ritmo. Ninguém precisa entregar o episódio mais doloroso da vida no primeiro encontro para provar que a terapia é séria.
Se um assunto ainda não pode ser dito, você pode simplesmente sinalizar: "existe uma coisa aqui que eu ainda não consigo contar". Isso já é útil. Eu registro, respeito o tempo e não fico cutucando.
Falar de trauma cedo demais, sem preparo e sem recursos de regulação, às vezes só reabre a ferida sem tratar nada. Em traumas e questões emocionais o cuidado com a dosagem é parte do método, não delicadeza excessiva.
Também não é obrigatório ter uma explicação. Você pode não saber por que chora no domingo à noite. Descobrir isso é serviço meu e seu, feito junto, e não pré-requisito de entrada.
Como render mais no primeiro encontro
Três coisas simples aumentam bastante o rendimento de um primeiro encontro.
A primeira: anote durante a semana. Não um diário elaborado, apenas duas linhas no celular quando algo te derrubar. A memória seleciona mal, e sem registro a gente conversa só sobre o que aconteceu nas últimas 48 horas.
A segunda: chegue com dez minutos de folga. Sair correndo do trabalho e entrar ofegante consome a parte inicial da sessão só para o corpo desacelerar. No online, valem os mesmos dez minutos, mais um lugar em que você possa falar sem ser ouvido.
A terceira: diga quando algo que eu falei não fez sentido. Terapia não é aula, e concordar por educação atrasa o processo.
Quando procurar um psicólogo
Se você chegou até aqui pesquisando o que dizer, provavelmente já sabe que quer conversar com alguém — e está apenas procurando alguma segurança de que não vai passar vergonha.
Não vai. A desorganização com que você chega é dado clínico, não defeito. Vale procurar quando o incômodo já dura semanas, quando ele começa a encolher sua vida ou quando você percebe que passou a contar cada vez menos coisas para cada vez menos pessoas.
Atendo adolescentes, adultos e idosos em Santana, Zona Norte de São Paulo, e no atendimento online para quem prefere de casa. Tire suas dúvidas pelo WhatsApp antes de agendar, se isso deixar a decisão mais leve.
Perguntas frequentes
E se eu não souber mesmo o que falar na terapia?
Então começamos pelo que existe: como foi seu dia, o que te trouxe, o que você sentiu ao marcar a sessão. Eu conduzo com perguntas até aparecer um fio. Ninguém fica em silêncio uma hora inteira.
Preciso contar tudo logo na primeira sessão?
Não. Você define o que entra e quando. Assuntos mais duros costumam ser trabalhados depois que existe vínculo e algum recurso para lidar com o que eles mobilizam.
Posso levar anotações ou ler o que escrevi?
Pode, e ajuda bastante. Ler um texto que você escreveu numa madrugada difícil às vezes comunica mais do que a versão contada com calma dias depois.
É normal sentir que meu problema é bobo?
É muito comum, e quase nunca corresponde à realidade. O critério clínico não é a gravidade do acontecimento, é o quanto ele interfere no seu sono, no seu trabalho e nas suas relações.
Posso falar mal das pessoas da minha família?
Pode. A sessão não é um tribunal e não existe julgamento moral do que você sente. Raiva de quem se ama é comum e costuma ser um bom ponto de partida.
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Se algo aqui soou familiar, vamos conversar
Você não precisa chegar com o problema organizado nem saber explicar o que sente. Me conte em poucas linhas o que está acontecendo e eu explico como podemos seguir.
Luciano Domingues da Costa · Psicólogo · CRP 06/123954